terça-feira, 30 de agosto de 2011

LUÍS MIGUEL NAVA e ISABEL DE SÁ, numa das visitas frequentes do poeta ao Porto. Anos 80

Isabel de Sá nasceu em Esmoriz a 8 de Setembro de 1951. Licenciatura em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Poeta e artista plástica.

REPETIR O POEMA, de ISABEL DE SÁ reune 14 livros da autora. Edições Quasi, 2005.

4 POEMAS DE ISABEL DE SÁ

Eu ela e a escrita existimos desde o princípio. A escrita forma-se em mim, passa por ela e volta à minha pele  nun jogo sensual e íntimo. É um ser maleável aos gestos que executamos, vive e morre com os nossos impulsos. Quando se ausenta deixa sinais. Faz-nos confidências da sua vida errante, elabora sentimentos que não esperávamos que tivesse quando junta ao nosso, o seu instinto criativo. Assim, utilizo agora palavras que nunca pensei vir a escrever.. Aceito-as porque as sei da espécie da personagem que habita connosco, conivente com os erros que cometemos.
Quando adolescente, passava o tempo a ler o dicionário, apercebendo-me da corrosão de algumas palavras, do seu poder destrutivo. Noutras havia sombra e um peso monstruoso. E as que ao tempo foram luminosas, irradiavam um brilho que se colou aos meus dedos. Eu gastava os dias a limpar-me dessa luz até não haver em mim resíduos de leitura. Descobria o esquecimento, onde o poema veio a ser abismo, outra vida onde o sorriso da morte teve muita importância. Amei a imperfeição do ser humano. Revisitei a infância e aquilo que em nós é real. Não soube prescindir da beleza.
Ela vem do exterior, arrasta tumultos, ideias, um frágil ramo de árvore. A vida confusa, dividida. Aquilo que é interior e nasce involuntáriamente. Violetas deixadas em água, o desenho incompleto para sempre inútil. A bola de cristal ainda na memória.
Lembrar-te, é amar os corpos que partilhamos. O que me atrai em ti pertence à sabedoria do texto, à primeira palavra murmurada. O que me atrai no amor é a indeterminação, o impulso inicial. Os rostos que amei na tua ausência foram tocados por ti através da minha pele. Ninguém pode esclarecer a sua alma à margem deste pacto. O nosso amor desfaz o trio.
É na treva que sou obrigada a reconhecer o que escrevo. Sucumbo a uma grave abstracção de pensamento donde chego a sair tocada pela invocação da palavra.


Realidade


 Por causa de um livro
vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.

Atingido o espírito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer
não mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê.

Isabel de Sá, in “Erosão de Sentimentos

João Borges nasceu em Braga a 10 de Março de 1990. Reside em Lisboa onde estuda Arquitectura.

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

JL de 24 de Agosto de a 6 de Setembro de 2011

3 POEMAS DE JOÃO BORGES

Ainda estranho o corpo que visto
de manhã. Procuro outros
para sentir.

O silêncio arde, lento.

Estendo uma mão que toca
apenas em mim.

O tempo termina. Arrasta-me.
Vou-me evadindo para longe,
cinza inútil voando da fogueira.

O nome está no ruído
que desmorona noite dentro.
A chuva corrói a pele
em pleno deserto.

Dentro dos teus passos
há um segredo do tamanho
da luz.
Ao pressentir a escuridão
do vazio,
os braços inclinam-se
para ti.
Ao Vento Em Terramotos, edição cofre nocturno, lisboa, 2011
Com o corpo todo à espera
entro para a neblina.
Alameda vazia, silêncio.
Casas erguidas
para fazer um caminho.

Com o corpo todo à espera
chamo-te, sem saber o

 nome, sem luz, sem imagem.
Fantasmas prolongam
os passos, adiam a casa.

Com o corpo todo à espera
silencio a vontade
de me aproximar, viver.
Respiro a humidade
do nevoeiro, sempre à espera


domingo, 28 de agosto de 2011

JOÃO BORGES - AO VENTO EM TERRAMOTOS



Edição Cofre Nocturno, Lisboa, 2011, hors-texte e ilustração de Graça Martins, desenho da capa de João Borges

JOÃO BORGES - Pele, papel e poesia por António Carlos Cortez - JL de 24 de Agosto a 6 de Setembro de 2011

Um livro singelo, sóbrio, com um belo grafismo e desenhos extremamente sugestivos. As figuras um tanto-quanto andróginas, convidam-nos a uma leitura atenta que se reinicia na epígrafe, de Lídia Jorge, e que encima este belo objeto estético. Diz essa epígrafe: "Não é porque alguém chama que alguém responde" Justamente estas palavras ecoam nos poemas de João Borges que parecem ser motivados por uma procura, por uma audição de alguém que, na verdade, se sabe longe. São poemas que revelam - e tomara que a restante crítica desse por este livro e se pronunciasse, de forma justa e verdadeira - um poeta. Uma voz que deve chegar a mais leitores da nossa poesia actual.
O poema que funciona como prefácio coloca como tónica a construção de uma personalidade poética insaciável. Uma personalidade que faz da escrita o palco onde irá expor-se:"Estou sempre com sede e nunca me canso de beber". A primeira secção deste breve livro tem oito poemas, todos eles tensos, enigmáticos e com uma imagética forte e uma construção metafórica que, em alguns momentos, sugere a leitura de Luís Miguel Nava ("As pedras que acendem / entram e saem da minha pele, / deixam feridas. // A fogo rasgam as veias. // Atiro a escuridão para /a rua. Esmorece a paisagem, flui o desejo. / Posso avançar/sobre trevas" (p.13)). É de facto, uma poética da pele, do fogo, de um erotismo apaixonado mas que se vive às escuras, numa espécie de transe para o qual não há saída existencial concreta. Por isso o tom de segredo, de diário oculto que às ocultas tivesse sido escrito. Nessa escrita sobre a paixão, o poema surge como objeto de reconhecimento do próprio sujeito, procurando-se uma definição do rosto, do corpo e das memórias de um amor louco e onde se pode perceber a lição de Breton e Eluard, para além de certa atmosfera passional que nos remete para Botto e mesmo para um certo Biedma. Escreve João Borges versos que denotam (e conotam) a fúria da escrita que irrompe depois da paixão e na reminiscência do vivido: Quero o orvalho mais vivo. Toma / esta pedra que não vês ,/ mas que eu sinto. // Finalmente, atirei-te contra / a cama, louco. A vida / acontecia, o amor mostrava / o rosto. Néons incendiavam / as ruas e nós, um no outro, / até ao fim. Respirávamos / palavras, esperma, sangue. / (...)" (p.15).
João Borges selecciona um léxico impressivo (facas, fogo, pedras, precipício, sangue, inferno, delírio, deserto) e num dos poemas que funcionam como possível arte poética, "O nome está no ruído", misturam-se a tonalidade autobiográfica com um fingimento que não se exime a fazer o relato não do que aconteceu, mas do que se pressente, do que é tangencial à ficção, ao olhar delirante do sujeito:" O nome está no ruído / que desmorona noite dentro. / A chuva corrói a pele / em pleno deserto" (p.19). A tentativa de fixar, em moldes de realidade, o amor e o sexo, propicía uma segunda secção (com 18 poemas) em que se relata o início, o climax e o fim desse amor-paixão
Raras vezes um poeta tem a ousadia de se mostrar assim num primeiro livro. Romanticamente, mas sem ceder a um discurso lacrimejante, Borges não esquece que a poesia nasce e tende ao lirismo. Esta é uma palavra perigosa. Mas está na hora de deixar de lado preconceitos críticos e pretensiosos. Lírica é esta poesia: fortemente lírica, densa, intensa, escrita com consciência da verdade íntima do que se viveu e que, na linguagem se revive, desejando "escorregar pelas escarpas" depois do desencontro a que todo o amor - paixão está votado. Título deste primeiro livro? Programático: Ao Vento em Terramotos.

JL